Saturday, 8 October 2011

Os Cinco Estágios de Luto


Passava pouco das nove da manhã. Miguel olhava pela janela para a rua iluminada por um branco matinal, típico do sol de uma manhã de Outubro. A luz penetrava pela janela semi-aberta do escritório, realçando o sofá onde Miguel aguardava pela consulta. Um homem observava-o na penumbra oposta do outro lado da sala. Os dois trocaram um olhar enquanto Miguel saboreava os últimos momentos do cigarro que segurava entre os dedos.

“Aqui tem”, disse o homem oferecendo-lhe um cinzeiro. 

Miguel expirou lentamente deixando o fumo desvanecer-se pelo ar com a leveza de uma clara neblina. Enquanto esmagava as cinzas na base do cinzeiro, o seu olhar voltou a desviar-se para o homem do outro lado da sala. Um silêncio de antecipação abateu-se pelo escritório.

Miguel foi o primeiro a falar

“Por onde quer que comece?”, perguntou.

“Não existe qualquer regra estabelecida, mas como na maioria das histórias, pode sempre começar pelo início.”

“Permita-me então que contrarie a norma e que comece pelo fim.”

“Como desejar.”

“Há cinco estágios de luto…”

“De morte”, interrompeu o homem.

“Ambos dependem da perspectiva, do sujeito que a vive. Embora se tratem de dois estados diferentes, têm ambos o mesmo objectivo. Seguir em frente e aceitar a necessidade de o fazer.”

“Podemos colocar as coisas dessa forma, mas não se esqueça que são dois tipos distintos de aceitação.”

“Talvez, mas não concorda que no fundo ambos os percursos procuram apenas ensinar-nos a conviver com a inevitabilidade do nosso destino?”

O homem ponderou por um momento e assentiu.

“Como estava a dizer, há cinco estágios de luto. O primeiro é a negação.”

“O estágio em que actualmente se encontra?”

Sem se aperceber, Miguel brincava com o seu isqueiro por entre os dedos. Observou este acto involuntário das suas mãos por alguns instantes antes de se dirigir novamente ao homem.

“Acho que parte dos motivos que me trouxeram aqui hoje foi o senhor ajudar-me a descobrir em que estágio me encontro.”

“De facto posso ajudá-lo mas preciso de mais informação.”

Miguel retomou a sua história.

“Negação. Talvez seja esta a melhor fase. Mantemos a esperança de que as coisas possam ainda melhorar. Sair da cama faz-nos pensar que o novo dia pode trazer algo melhor. Que tudo não passou de um pesadelo. Mas como o próprio nome indica, tudo isso não passa de uma doce mentira que contamos a nós próprios para que a dor não seja tão forte.”

A sua expressão manteve-se séria, inalterável. O homem observava-o incentivando-o a continuar.

“É só uma fase, vai passar. Os seus níveis hormonais estão desregulados. Afinal a página da Wikipédia dizia que paranóia era um dos sintomas mais comuns. O Verão nunca foi uma boa estação para mim, quando regressar o Outono voltaremos a ser felizes. A minha sensibilidade à luz faz com que me veja obrigado a semicerrar os olhos o que me torna menos atraente. Afinal o amor supera tudo, não é? Quando se ama alguém é para sempre e nada pode mudar isso. A mulher por quem me apaixonei continua lá, algures. Ela voltará a ser a mesma.”

Miguel falava para o vazio, ignorando a presença do homem.

“Pequenas mentiras racionais que contamos a nós próprios para fazer com que tudo fique melhor. Mas não fica. A dor continua lá e o passar do tempo apenas alimenta esse sofrimento.”

“Como está a lidar com esse sofrimento?”

Miguel respirou fundo, pensando em silêncio com o olhar desviado para a janela do escritório. Segurava o isqueiro na sua mão direita, acendendo-o durante curtos intervalos.

“Às vezes gosto de pensar que saltei a negação, fodi todos os outros estágios e mantive-me na raiva, deixando-a apoderar-se de mim até que cada centímetro do meu corpo se tornasse dormente”, responde, deixando sair um riso irónico.

“Descreva-me essa raiva.”

“Raiva. Segundo estágio. Ódio. Frustração. Sentimento de impotência para com tudo. Como se atreve a questionar os meus sentimentos por ela? Porque é que se limita a pegar em ridículos e insignificantes pormenores? Como pode alguém se esquecer de todos os momentos bons que passámos, de como éramos felizes e apenas insistir em dois ou três episódios maus que podiam ser tão facilmente apagados por uma fracção dos dias em que fomos felizes? Porque tenho que levar com esta barreira irracional que a impede de ver a simples verdade do nosso amor?”

Sem se ter apercebido, Miguel lançou o isqueiro para o outro lado da sala. As suas mãos, agora nuas, seguravam a sua face, impedindo em esforço, como uma frágil barragem, o fluxo de lágrimas que os seus olhos pareciam ameaçar.

O homem continuava a observá-lo serenamente.

“Quer contar-me o que se passou?”, perguntou.

“Não. Certas histórias precisam do momento certo para serem contadas.”

“Este não é o momento certo?”

Miguel compôs-se e voltou a fitar o vazio por alguns instantes. “Não”, respondeu, finalmente.

O homem assentiu, enquanto anotava algo no seu bloco de notas.

“Suponho que queira falar sobre a negociação.”

“Pensava que já tinha acordado o preço com a sua secretária.”

O homem sorriu, surpreso pela breve centelha de humor. “Continue.”

“Terceiro estágio. Negociação. Talvez o mais humilhante. Tão útil como lançar uma garrafa de oxigénio para uma casa em chamas com a esperança de as apagar.”

Miguel pausou por alguns segundos antes de continuar. O homem ofereceu-lhe um copo de água que ele aceitou com gratidão.

“Pensei para mim próprio”, continuou. “Talvez se eu mudasse, talvez se ela me desse mais uma oportunidade de lhe provar como podemos voltar a ser felizes. Basta estarmos juntos, ela vai voltar a senti-lo. Se eu implorar, se eu bradar aos céus o que sinto por ela, talvez aí…”

Hesitou, inseguro sobre o que estava prestes a revelar.

“Uma noite cheguei mesmo a rezar, a pedir que ela desse ouvidos ao seu coração e que de alguma forma encontrasse a calma de espírito necessária para quebrar a sua lógica destrutiva e voltar a ser feliz comigo. Um último acto de desespero…”

O homem observou Miguel pensativamente antes de falar.

“Recorrer a uma entidade superior quando nos sentimos impotentes e nada mais temos onde nos apoiar, faz parte da condição humana. Não é algo do qual deva ter vergonha.”

Miguel assentiu.

“Foi nesse momento que percebi que nada mais havia a fazer. Por mais que me quisesse convencer do contrário, por mais que me quisesse agarrar a uma réstia de esperança, nada mais podia fazer.”

“Quarto estágio”, disse o homem.

“Depressão”, respondeu.

“Por mais romântico que fosse, por mais poemas que escrevesse, por mais canções que lhe cantasse, nada iria mudar. Embora não tivesse feito nada de mal…”, parou, hesitante.

“Aliás, embora tenha errado em certos aspectos, quando não se comete um ‘crime’ específico, algo objectivo que seja capaz de ser remediado, que seja capaz de ser perdoado, nada há a fazer. Nada há a fazer, quando o problema és tu, a forma como te vês, como és, como sentes, como vives. Quando o teu único erro é a tua maneira de estar e de ver o mundo, nada podes fazer. Nada podes fazer se não…”

As primeiras lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto ele voltava a olhar através da janela semi-cerrada.

“Se não?”, perguntou o homem.

Miguel limpou as lágrimas dos seus olhos, calmamente dirigindo o seu olhar para o homem.

“Aceitar.”

 “Quinto e último estágio”, respondeu.

“Já estive em baixo, antes. Normalmente dormia durante horas a fundo sem qualquer vontade de me levantar da cama, mas não agora. Mal consigo dormir. Embora tenha alguma facilidade em adormecer, acordo muito antes da minha hora habitual e levanto-me quase de seguida. Apesar das poucas horas de sono, é raro sentir-me exausto ao fim do dia. Para ser sincero, é raro sentir seja o que for.”

“Acha que ainda se encontra no quarto estágio?”

“Sim. Não estou preparado para seguir em frente, não sou capaz de aceitar a ideia que a perdi para sempre. De esquecer todos os planos que tínhamos, todas as coisas que não fizemos. De apagar toda a imagem de um futuro juntos. Tenho saudades dela, do seu olhar, do seu sorriso, do seu cheiro, do seu toque… Tenho saudades do seu amor. Tenho saudades da nossa felicidade.”

Miguel rompeu em lágrimas e deixou-se cair no chão do escritório. O homem aproximou-se para o consolar, oferecendo um lenço de papel. Durante alguns minutos, ficaram ambos por ali. O silêncio da sala era apenas interrompido pela respiração ofegante de Miguel.

“Estes ataques de ansiedade são-lhe frequentes?”

“Uma vez por dia, pelo menos”.

O homem assentiu anotando no bloco de notas.

“Parece-me que compreende perfeitamente qual o próximo passo a tomar.”

“Seguir em frente.”

 O homem esboçou um sorriso de concordância.

“É bem mais fácil dizer que fazer”, responde.

 “Por mais que eu queira que a dor acabe. Sinto a necessidade de compreender o que se passou, de saber porque é que tudo isto aconteceu. Éramos tão felizes, tudo parecia tão certo.”

O homem ponderou por alguns segundos antes de responder.

“A palavra-chave nesse frase é ‘parecia’. Talvez tenha razão e tenha-se tratado apenas de algo que aconteceu de um dia para o outro, talvez ela apenas não se tenha sentido à vontade para partilhar consigo o que se estava a passar. Independentemente disso, o que é importante para si neste momento não é procurar as razões que o trouxeram aqui, mas sim redescobrir a sua autoconfiança, aceitar que ela o magoou e sentir-se capaz de seguir em frente para encontrar alguém que seja capaz de o amar por quem é, sem que sinta a necessidade de mudar. O seu futuro passa por alguém que o aceite e com quem se sinta à vontade para ser real a si próprio.”

Sentindo-se melhor, Miguel compôs-se e sorriu.

O homem olhou para o relógio, já passava da hora que tinham combinado.

“Muito obrigado”, disse Miguel enquanto se despedia do homem.

“Nunca subestime o poder do respeito por si próprio. Ser capaz de aceitar tudo aquilo que faz de si alguém único, é o primeiro passo para a aceitação do seu próprio destino.”

Miguel esboçou um último sorriso antes de sair.

“Quinto estágio”, disse, enquanto saía do escritório para regressar a casa. O sol outonal ainda brilhava com intensidade, iluminando um novo dia cheio de oportunidades escondidas ao virar de cada esquina.

Miguel respirou fundo e regressou a casa com um sentimento de paz lentamente se apoderando do seu corpo, consolando a cada passo a dor que pesava no seu coração.

Adriano Cerqueira
8 de Outubro de 2011

Wednesday, 7 September 2011

A morte do herói

Enquanto o Sol se escondia sobre a penumbra de um céu enegrecido pelas chamas que queimavam os últimos centímetros de atmosfera, em fúteis tentativas de travar o eminente juízo final que se abatia sobre a Terra, apenas um homem inutilmente se impunha na zona de impacto. Miguel contava os segundos para o fim. Rodeado por uma imensidão de nada os seus últimos pensamentos iam para ela e para a simples claridade de uma única certeza: estava verdadeiramente só.

Os seus olhos disparavam em todas as direcções, em busca de um vulto, de qualquer sinal de movimento, agarrando-se à mais ínfima réstia de esperança, à fé nas palavras de uma velha promessa. Mas nada. As próprias árvores pareciam preparar-se para esta inevitável conclusão. Nada se movia naquela clareira além dos gestos de antecipação deste imprudente rapaz. A solidão deu lugar a breves lágrimas, supridas pela inquietação de uma calma aterradora, típica de alguém refém do seu próprio destino.

Miguel fechou os olhos saboreando o seu último fôlego. Virou a cabeça para cima e abriu-os. Nestes seus últimos segundos, não deixou de se admirar com a irónica beleza da visão que assolava este céu infernal. Ao preparar-se para o choque, viu, por uma última vez, a única memória que ainda lhe restava de um tempo em que era feliz. “Sara…”, com um suspiro largou a sua derradeira palavra, espelho das recordações de uma vida que agora termina. Cerrou novamente os olhos para não mais os abrir.

Ao acordar no chão daquele velho terraço, Miguel levantou-se em um sobressalto. Impulsionado pela chuva que ardia na sua face, cada gota como uma gélida facada penetrante, viu-se forçado a cambalear até ao parapeito mais próximo, ainda atordoado pelo choque da queda.

Ele ainda estava ali, o mesmo vulto negro que o tinha espancado até um ponto de quase inconsciência. Agarrava Sara nos seus braços com a arma apontada à sua cabeça. As forças escapavam a Miguel mas tinha que fazer alguma coisa. Não a podia deixar morrer, não ali, não agora, não pelas mãos daquele monstro.

O vulto parecia gabar-se pela vitória alcançada. A rebentação de um relâmpago no horizonte ilumina por breves momentos o breu da noite. Miguel consegue ver com clareza a cara do seu rival. Um sorriso histérico de compreensão, banhado por lágrimas de ódio, ocupa agora a sua face.

“O que pensas que estás a fazer”, grita.

O negro vulto vira-se para ele, espantado por este ainda ter energia para falar.

“Faço aquilo que tem que ser feito. Algo além da tua compreensão”, responde em tom condescendente como se falasse para uma criança irreverente.

A raiva cresce à medida que o coração de Miguel acelera. O vulto coloca o dedo no gatilho e prepara-se para disparar.

“Adeus.”

Num acto mecânico e inconsciente, Miguel reúne todas as suas forças e ataca o vulto antes deste disparar. A adrenalina que toma agora conta do seu sangue deu-lhe energia para percorrer os metros que os separavam em meros segundos. A força do embate foi tão grande que Sara saiu disparada contra o parapeito enquanto os dois se lançavam para o vazio.

Miguel conseguiu agarrar-se a uma laje. O seu braço cambaleava com o peso do seu corpo. O vulto negro tinha desaparecido na escuridão da noite. Também Miguel começava a escorregar.

Sara acorda combalida pelo choque. Aproxima-se do parapeito onde Miguel se encontrava.

“Como sei que és tu e não ele?”, pergunta-lhe.

“Deixa o teu coração dar-te a resposta”, responde.

Sara estica os braços para tentar puxar Miguel. A distância entre o parapeito e a laje deixa-a a meros centímetros de o poder ajudar. Mesmo assim, Sara tenta, incapaz de aceitar este desfecho.

“Aguenta, eu vou buscar ajuda”, diz-lhe em desespero.

“Não, não vale a pena, não aguento muito mais”. Ditas estas palavras o seu braço começa a ceder, o esforço inumano de suportar todo o seu peso, aliado ao desgaste do choque com o seu rival são mazelas fatais para a tarefa agora apresentada.

“Sara, eu…”, o esforço força-o a largar antes de concluir a frase. A rebentação dos relâmpagos como que lhe oferecem uma breve benesse, ao iluminar a face de Sara por uma última vez.

Ao cair em direcção ao vazio, Miguel guarda em si uma última certeza. Nunca esteve tão calmo, nunca esteve tão em paz, nunca foi tão feliz. “Sara, agora irei voar”.

O avião preparava-se para descer em direcção ao aeroporto. A viagem já ia longa. Miguel contemplava o céu coberto por um mar de nuvens do mais branco que já tinha visto, prolongando-se ao longo do horizonte.

À medida que o avião atravessava a camada de nuvens, Miguel começou a aperceber-se da precipitação que se acumulava na janela de uma das saídas de emergência sobre a asa, mesmo ao lado de onde ele se encontrava.

Nada fora do normal, não fossem algumas gotas terem começado a escorrer através da janela. A porta estava a perder pressurização.

Miguel tenta chamar a assistente de bordo em vão. O sinal de apertar os cintos de segurança já estava ligado, o avião estava prestes a aterrar e nada mais podia ser feito.

Quando o solo surgiu por entre a espessa camada de nuvens, já a porta tinha começado a ceder. O avião descaía sobre o seu lado esquerdo, descendo a alta velocidade em direcção ao aeroporto. Uma turbulência anormal realçava o ar de apreensão na face dos passageiros.

A própria voz do piloto tremia de nervosismo ao anunciar a aproximação da aterragem. Miguel continuava a olhar pela janela como se não quisesse perder um único pormenor da catástrofe iminente. O avião roçava a copa das árvores, sem diminuir a velocidade.

Já se desenhava a silhueta do aeroporto no horizonte quando a porta rebentou, a pressão de ar puxava Miguel para fora. Preso apenas pelo cinto de segurança, Miguel era testemunha de uma dança de revistas, malas, papéis e canetas a passar rente à sua cara, sugados para o vazio onde ainda há instantes estava uma porta de emergência.

O avião aterrou na pista sobre o lado esquerdo, a asa raspou na pista e partiu-se a meio. A electricidade estática provocada pelo choque fez com que o combustível da asa se incendiasse. O avião derrapou ao longo da pista sem controlo. Miguel manteve-se no seu lugar, evitando os fumos tóxicos que invadiam a cabine.

Sob gritos de morte, fechou os olhos e deixou-se cair na inconsciente graciosidade das suas memórias. Sentiu o seu toque, cheirou o seu cabelo, no seu derradeiro momento de existência viu-a por uma última vez. Chamou-a para os seus braços e deixou-se perder no seu calor.

Sara observava o desastre na gare. Quando o avião finalmente parou a poucos metros da pista de embarque, deixou-se cair em lágrimas assolada por uma terrífica incredulidade. Por um instante sentiu uma mão familiar a confortá-la e aceitou o seu abraço. Quando voltou a abrir os olhos o avião continuava a arder. Estava só. Apenas só.

Passava pouco das onze da noite. Miguel aguardava no esporão há cerca de duas horas. “Estarei lá. No mesmo local onde fizemos aquela promessa”, já perdia as contas às vezes que tinha lido a última mensagem de Sara.

As horas passavam sem qualquer sinal dela. Miguel aproximou-se da ponta do esporão. “Só mais um pouco”, disse.

Fechou os olhos. O vento envolvia-o num abraço ameno, típica brisa outonal que trazia consigo ainda algum resquício do calor de Verão.

O céu límpido era apenas perturbado por uma ocasional estrela cadente. O desejo, esse, era sempre o mesmo. Apenas mais um momento com ela, poder voltar a segurá-la nos seus braços. Só mais uma oportunidade de mostrar o amor que sente por ela, de o dizer abertamente sem hesitações, sem mais barreiras ou restrições. Uma última oportunidade de serem apenas um.

Meia-noite. Miguel abriu finalmente os olhos. Suspirou uma última vez antes de olhar em seu redor. Nada. Despiu o casaco, descalçou os sapatos e as meias. Pousou o telemóvel ao seu lado. Nas mãos guardava uma foto da Sara com ele. “Parece ter sido noutra vida”, pensou.

Segurou a foto próxima do seu coração e deixou-se cair.

No ecrã do seu telemóvel reluzia ainda a última mensagem que Sara enviou. A data era de há um ano atrás. Antes do acidente, antes da sua morte. Quando Miguel e Sara ainda eram felizes.

Adriano Cerqueira
7 de Setembro de 2011

Friday, 20 August 2010

Infinito

“Estou muito perto de casa, mas tão longe de ti”. Faltava pouco para o anoitecer, apenas o suave e contínuo ressoar das ondas do mar perturbava o silêncio daquela tarde. O cinzento das nuvens ameaçava chover e apesar do tardar da hora, o sol não tinha ainda iniciado a sua descida até ao mais profundo dos horizontes. Miguel fitava o infinito, a sua face coberta por um vazio de expressão. Na sua mão um papel, branco, acariciado por uma ligeira brisa que teimosamente o tentava libertar do gentil aperto que ali o mantinha.

“Um simples papel é inútil até que alguém escreva nele”, pensava. Miguel procurou no bolso do seu casaco, lá aguardava uma caneta que há muito ansiava por usar. “Qualquer amor é inútil se ambos não estiverem dispostos a arriscar”, escreveu.

“Ontem estivemos próximos um do outro, podia sentir-te e sabia que estavas ali, mas não conseguia ver-te. Embora os nossos olhos nunca se tenham cruzado, hoje sei que também me sentiste. Pode apenas um dia, um simples momento, uma mera palavra, definir a nossa história?” Miguel escrevia, procurava nas suas palavras uma resposta a algo que não lhe cabia perguntar. Enquanto os seus dedos guiavam a caneta ao longo do papel, na sua mente permanecia apenas uma recordação.

“É tarde, não devo estar aqui”, dizia Sara, dirigindo-se mais para si própria do que para ele. Era uma noite como qualquer outra, após um longo dia juntos, encontravam-se agora sentados nas escadas do apartamento de Miguel. Falavam há horas sem nada dizer.

“Nem sempre o que devemos fazer é aquilo que temos de fazer”, respondeu ele. Sara esboçou um ligeiro sorriso enquanto os seus olhos calmamente se desviavam à procura dos de Miguel. Ele respondeu de igual forma, mas o seu sorriso rapidamente deu lugar a uma face de preocupação, na expectativa da conversa que se seguiria.

“Porque não pode isto ser mais simples?”, perguntou.

“Por mais que eu queira… Por mais que queiramos que seja, simplesmente, não o é”, respondeu Sara sem um mero sinal de hesitação.


“Eu quero dizer-to e ouvir-te a dizê-lo”.


“Eu também.”


“Parece-me bastante simples”, por um momento a voz de Miguel ameaçou falhar, enquanto os seus olhos se fixavam nos dela.


Aproximaram os seus lábios em antecipação do momento que ambos desejavam. Horas podiam ter passado enquanto os dois se deixavam afundar na ilusão de um amor impossível.


De regresso à fria realidade daquela noite, Miguel e Sara trocavam olhares como se estivessem envolvidos numa longa conversa sem palavras. Para alguém que por ali passasse seria tão fácil identificar o diálogo inexistente entre estes dois que não estranharia a falta de qualquer tipo de som.


Mas por mais que algumas coisas sejam, desde logo, entendidas por ambos, é necessário dizê-las com algo mais que um olhar.


“Não podemos continuar assim”, disse Sara quebrando o silêncio.


“Qualquer outra alternativa… É algo que eu não quero”, respondeu Miguel.


“Mas não estaremos os dois a enganar-nos com promessas vãs de algo que não pode acontecer?”


“Porque não pode acontecer?”


Sara suspirou, desviando o olhar para as suas mãos em busca das palavras que podiam tornar aquele momento menos doloroso. Não as encontrou.


“Porque apenas vivemos de momentos. Dias, horas, meros instantes que ocupam uma percentagem ínfima das nossas vidas”.


“Isso não é uma resposta, muito menos uma razão.”


“Amanhã não estaremos juntos, regressamos às nossas vidas, a realidades onde não existimos”.


“Tu existes na minha realidade, e eu na tua. Estamos juntos, aqui e agora, e amanhã podemos voltar a estar. Para quê nos deixarmos definir por barreiras auto-impostas que apenas nos impedem de viver aquilo que mais desejamos?”


“Mas isto é tudo tão irreal… Tão platónico”, ela soluçou, reduzindo a sua voz a um mero suspiro.


“Como pode algo tão intenso ser apenas platónico? Como pode algo tão real não passar de uma mera ilusão?”


“Não sei, simplesmente, é”.


Sara continuava concentrada nas suas mãos, como se nelas guardasse a resposta. Embora algo dormente pela frieza das últimas palavras, Miguel prosseguiu com a discussão.


“Sara…”, dizer o nome dela sempre foi tarefa difícil, pois cada sílaba, cada letra, formava mais do que uma mera palavra, dizer o seu nome, dizê-lo ali, era, para Miguel, quase como dizer “amo-te” pela primeira vez. “Nós somos tão reais como tu, como eu, como estes degraus, como a noite que nos envolve, e por mais ilusórios que sejam os nossos desejos, são parte daquilo que nós somos”.


Suavemente colocou a sua mão sobre a dela e encostou-a ao seu peito.


Cada batida do coração de Miguel era como um impulso que puxava para fora as palavras, a verdade que há muito reservava no interior do seu próprio coração.


Antes que Sara o pudesse dizer, antes que deixasse escapar aquilo que outras promessas a impediam de proferir, Miguel beijou-a.


Unidos, inseparáveis pelo mais intenso dos abraços, eram agora um só, partes iguais de um todo que não mais queriam ver desfeito.


Por mais perfeito que um momento seja, por mais que o desejo de ambos o prolongue, tudo tem o seu fim.


Sara agarrou com força o casaco de Miguel e encostou a sua face ao seu peito. Embaraçada pela falta para com as suas obrigações, deixou-se envolver por uma raiva incontrolável, largou-o e levantou-se, virando-lhe as costas.


Miguel já esperava esta reacção. Aguardou um pouco antes de a tentar acalmar.

“Não podemos continuar assim. Não posso continuar a fazer isto, não posso”, disse ela.

Sem hesitação, ele repostou: “Sim, amanhã tens que regressar à ilusão que preferes ao invés desta realidade”.


“Dizes isso com tamanha facilidade, falas em ligações, em destinos, em verdade. A verdade é que não me conheces, nem eu a ti”, respondeu Sara.


“Eu conheço-te e tu a mim.”


“Dizes conhecer-me, mas não sabes as coisas mais simples sobre mim”, ripostou em tom de desafio.


“Posso não saber qual a tua bebida preferida, como tomas o teu café, posso não saber o nome do teu perfume, mas conheço-te de uma forma bem mais profunda. Sei que há dois lados em ti e que são ambos excelentes. O teu lado selvagem que usas como máscara para o resto do mundo, onde guardas os teus desejos, a tua vontade por uma vida intensa sob a égide do carpe diem, e o teu lado moderado que reserva uma rapariga doce e ao mesmo tempo pragmática, que acredita no amor mas com medo de se entregar a sério a alguém. Sei do teu passado, do lado escuro onde temes um dia regressar. Em verdade, és para mim um livro que tanto encontro aberto como fechado, guardas em ti os teus, os nossos segredos e partilhas cada um sem o mínimo arrependimento.”

“Conheço-te Sara, e amo cada pormenor que faz de ti a mulher que hoje vejo à minha frente”.


Abalada pela sinceridade de Miguel, Sara teve que recorrer ao máximo das suas forças para conter o desejo de correr para os seus braços.


“Disseste-o”, finalmente, disse.


Ainda a recuperar o fôlego após esta confissão, Miguel respondeu simplesmente: “Sim.”


Nem ele podia adivinhar o que se ia suceder a seguir.


Sara fixou o seu olhar no dele, por uma última vez. Naquele momento, cientes do que tinham para dizer, falaram sem uma única palavra. Sara voltou-se e desapareceu na escuridão da noite.


Miguel ainda demorou alguns minutos até se aperceber que estava agora sozinho em frente ao seu apartamento. Os degraus onde ainda há pouco ambos se tinham sentado a partilhar os pormenores mais íntimos dos seus corações, estavam agora tão vazios como aquela gélida noite primaveril.


A folha em que Miguel escrevia não era suficiente para tudo aquilo que ele tinha para dizer, mas por agora teria que servir.


Letra após letra, palavra após palavra, Miguel depressa chegou à última linha do papel que guardava entre os dedos. Embora para ele todo aquele processo tivesse demorado apenas breves instantes, foram na verdade horas que separaram a primeira da última palavra daquele texto tão precocemente criado.


Leu-o uma, duas, vezes suficientes até lhes perder a conta. O sol ainda se punha no horizonte, a noite timidamente relutante em tomar conta dos céus, quando Miguel guardou o papel e a caneta no bolso do casaco. Ali se manteve por mais alguns minutos, quieto, vazio de pensamento, a fitar o infinito.


Ao levantar-se para regressar a casa, reparou numa ténue figura ao longe na entrada da praia. Estaria ali a fitá-lo há horas, pensou. Talvez tivesse apenas agora chegado e com a curiosidade típica de qualquer um, estranhado a presença de alguém tão afastado do resto do mundo, numa hora como esta.


Miguel começou a andar. A figura mantinha-se estática como que presa aos seus movimentos. Quando finalmente a alcançou, fitou-a de igual modo e não a reconheceu, passou ao lado, determinado a partir quando a voz daquela figura o deteve.


“Ontem não te vi, mas sabias que estavas lá.”


Ele permaneceu parado. Ambos de costas um para o outro com o olhar fixo no horizonte.


“Na outra noite, estava errada, pois tu conheces-me e eu a ti.”


Miguel serrou as mãos impedindo-se, a custo, de revelar qualquer emoção.


“Tu também tens dois lados, que ambos adoro. O teu lado desinteressado que vê a vida como uma contínua rotina de coisas desnecessárias, animada por esporádicos momentos como aqueles que partilhamos. O lado que não tem medo de arriscar tudo por aquilo que acreditas como verdade. E o teu lado emocional, que se reserva por detrás de um receio de te entregares e saíres magoado, mas que ao mesmo tempo alimenta uma forte crença no amor, num amor capaz de destroçar qualquer barreira por mais irracional que tal tarefa aparente ser. Ambos partilhamos o lado escuro, com origens diferentes, é certo, mas onde a luz igualmente não brilha. Temes cair nesse poço tanto ou mais como eu. Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais.
Conheço-te Miguel, e é por tudo isto, por ti, por nós, que eu amo-te”.

Sem saberem ao certo como ali chegaram, tão depressa estavam separados como agora se encontravam unidos em mais um abraço profundo. Enquanto lágrimas de alegria escorrem pelos olhos de ambos, Miguel e Sara trocam um sorriso que dá por terminada a longa tempestade que os assombrou nos últimos tempos.


Como que à espera deste encontro, o Sol surge finalmente por entre as nuvens, pintando de laranja o céu tardio.


Abençoados por esta surpresa divina, perdem um momento a contemplar o reluzir do mar sob a luz do final de tarde. Miguel limpa as lágrimas da face de Sara e beija-a. O primeiro beijo do resto das suas vidas.


E o texto que Miguel guardava no bolso do casaco? Larga-o agora, livre na brisa vespertina. Palavras soltas ao vento, com destino incerto, para sempre ilustradas no eterno amor que ambos agora partilham.

Sunday, 28 February 2010

Numa Tarde

Três da tarde. “Dizem que a cor do mar não é a mesma em todo o lado, de facto, tudo neste dia é diferente”. O sol raiava por entre as nuvens de um dos últimos céus de Inverno que Março ainda tinha para oferecer. Miguel aguardava pensativo numa modesta esplanada à beira-rio. Este lugar não guardava nada de extraordinário para qualquer simples viajante que por ali passasse, embora a vista para o estuário, e a sua consequente ligação ao mar, motivassem uma breve contemplação sobre o sentido da nossa própria existência quando comparada com a imensidão do horizonte, nada diferenciava este lugar de tantos outros espalhados ao longo das margens. Talvez assim fosse para qualquer simples viajante, mas não para Miguel. Na verdade, há já vários anos que ele sonhava com este lugar, com este momento.

“Deseja alguma coisa?” A interrupção do empregado retira Miguel das profundezas dos seus pensamentos e força-o a emergir na realidade do momento.

“Não, obrigado. Estou à espera de alguém”, responde.

“Muito bem”, o empregado volta as costas à sua mesa e já regressava para o interior da esplanada quando ouve Miguel a chamá-lo.

“Desculpe, ouvi dizer que os vossos pastéis de nata são dos melhores da zona, sempre é verdade?”

“Imagino que todos os cafés se gabem do mesmo, mas posso garantir-lhe que os nossos são cinco estrelas. Quer que lhe traga um para provar?”

“Não, prefiro aguardar. Acarta com as responsabilidades se o que me disse acabar por não ser verdade?”

Perplexo com a pergunta, o empregado esboça um sorriso. “Com todo o gosto. Vou certificar-me que lhes são servidos os melhores pastéis de nata que temos hoje”.

“Não lhe pedia tanto, mas obrigado”, Miguel responde com outro sorriso. Ambos despedem-se por agora. O empregado apreçasse a atender um casal que tinha chegado no entretanto à esplanada, enquanto Miguel regressa à sua contemplação do infinito horizonte.

Prestes a reimergir no interior da sua mente, Miguel é interrompido por duas mãos que suavemente acariciam os seus olhos e lentamente transformam o dia em noite, num instante mais breve que qualquer eclipse.

“Não devias perguntar ‘quem é’?”

Ele sente a face desta nova personagem aproximar-se do seu ouvido. Com um sussurro quase inaudível responde: “Não.”

Miguel sorri. A partir desta simples palavra é impossível decifrar a quem pertence a voz que a enunciou. Contudo, ele reconhece-a, não pela voz, mas pelo gesto, pelo cheiro, pelo seu toque, mas, acima de tudo, pela forma como o seu coração acelera na sua presença.

Delicadamente, Miguel retira as mãos dela e, mantendo os olhos fechados, vira-se na sua direcção. “Olá Sara.” Abre os olhos.

“Olá”, responde.

Ambos trocam olhares por breves segundos. Segundos que, para cada um, representam a eterna ansiedade pelo momento que ambos desejam que se siga, mas que ambos são forçados a negar.

“Queres-te sentar?” Miguel pergunta, pondo fim ao impasse.

Sara afasta os seus negros cabelos num suave movimento de uma indescritível beleza que deixa Miguel incapaz de desviar o olhar e de contemplar este momento como se o próprio tempo tivesse abrandado, e fixa o seu olhar no horizonte.

“Escolheste um bom sítio”, diz.

“Ainda bem que gostas. O empregado até se deu ao trabalho de nos guardar os melhores pastéis de nata que eles aqui têm.”

Sara sorri e volta a observá-lo por instantes. “Então é melhor o chamares, quero ver se são tão bons como dizem”.

Miguel oferece-se para a ajudar a sentar-se, gesto raro nos dias de hoje. O seu cavalheirismo sempre foi algo que Sara apreciou nele, mesmo que por vezes lhe dê algum embaraço aceitar tão simples gestos de delicadeza. Mas não hoje, não aqui.

O empregado pede dois minutos em resposta ao aceno de Miguel.

“Desculpa o atraso, não conheço muito bem esta zona”, diz ela.

“Não faz mal, sou dotado de uma eterna paciência, principalmente quando aguardo por algo que vale a pena a espera”, responde, expectante pela sua reacção.

Sara sorri-lhe, não um simples sorriso, mas aquele que guarda apenas para ele.

“Já querem pedir?” Regressa o empregado, interrompendo friamente o momento.

“Bom, pode trazer os famosos pastéis.”

“Muito bem, e para beber?”

“Dois cafés”, Sara responde.

“É para já”. O empregado afasta-se e regressa pouco tempo depois.

“Espero que esteja tudo de agrado.” Sara e Miguel provam os pastéis de nata e perdem-se momentaneamente num êxtase simultâneo de sabores medievais. Entreolham-se, surpreendidos com a deliciosa simplicidade gastronómica que a combinação da canela com as natas proporciona.

Ambos agradecem ao empregado e este despede-se com uma expressão de dever cumprido.

Durante alguns minutos, Sara e Miguel não conseguem falar de outra coisa além desta deliciosa surpresa protagonizada por umas simples natas.

“Temos que começar a vir cá mais vezes”, diz ela.

“Eu gostava”, ele responde. Um silêncio instala-se entre ambos. Não o típico silêncio de alguém que disse algo de errado, mas o silêncio de duas pessoas que não precisam de palavras para descrever o que ambos pensam.

Miguel suspira e inicia a conversa que os trouxe ali. “Eu não tenho medo”

“Medo?”, Sara pergunta, confusa perante esta inesperada afirmação.

“De nós. De arriscar”, ele responde com uma certeza sincera presente no seu olhar.

Sara desvia o olhar e contempla o horizonte por breves momentos.

“Não é assim tão simples”, responde.

“Sara, eu…” Miguel é interrompido pelo suave toque da mão dela na sua.

Sara fixa o seu olhar no dele. Os seus olhos castanhos penetram-no profundamente e atingem-lhe o coração, paralisando-o.

“Eu também”, responde com aquele sorriso que guarda apenas para ele. “Tu sabes. Mas não é assim tão simples”.

Miguel liberta-se momentaneamente do feitiço que a profundidade penetrante dos olhos de Sara lhe impõe e esboça um ligeiro “Porquê?”

“Porque não te quero perder. Porque há tantas coisas contra nós. Porque connosco tem que ser perfeito. Porque eu…”

“Porque tu…?” Miguel liberta-se por completo do laço mental em que Sara o mantinha.

“Porque eu…”, Sara quer dizê-lo, o seu coração força-a a gritar as palavras que há muito tenta conter, mas a sua voz trai-a no último instante.

Motivada pela frustração do momento, levanta-se e vai-se encostar ao muro que separa o passadiço da margem, fixando o olhar na margem distante.
Lentamente, Miguel vai ao seu encontro e coloca suavemente as mãos sob os seus ombros.

Algumas lágrimas escorrem pelo rosto de Sara. Não são lágrimas de dor ou tristeza, mas de pesar por um amor impossível que a ilude sempre que se aproxima dele. Porque não basta desejá-lo, porque não basta amá-lo, porque é que não podemos ser felizes um com o outro como qualquer outro casal? São as questões que passam pela sua mente enquanto o toque de Miguel a atira para um transe de sentimentos e desejos proibidos.

O sol da tarde reflecte nas suas lágrimas, iluminando o seu rosto com um universo de cores, criando uma imagem digna de qualquer um dos grandes pintores. Fosse ela hoje retratada sobreviveria ao teste do tempo imortalizada para sempre na eterna beleza de uma tela que todas as galerias do mundo desejariam exibir.

Miguel coloca as mãos sob o seu rosto e limpa-lhe as lágrimas. Sara não resiste, os seus olhos fixam-se nos dele, presos na ansiedade de concretização de um desejo, por ambos, há muito procurado.

Ambos fecham lentamente os olhos e deixam que os seus lábios se encontrem.

Uma música suave faz-se ouvir no fundo enquanto ambos se beijam. Embora não possam ter a certeza, ambos sabem que ela é real e que tanto Miguel como Sara partilham neste momento uma melodia unicamente reservada para o seu amor, que já mais alguém para além deles irá ouvir.

Miguel toma Sara pela mão. Ambos trocam olhares como se se vissem pela primeira vez. De certa forma, estavam a ver-se pela primeira vez. Já não eram Miguel e Sara, eram algo novo.

Começam a andar em direcção ao horizonte sem desviar o olhar um do outro. As suas silhuetas confundem-se uma com a outra, culminando na final representação de um amor ao qual nenhum deles é capaz de resistir.

Neste dia, neste momento, Miguel e Sara deixaram de existir.

“Agora somos dois”.

Adriano Cerqueira
27 de Fevereiro de 2010

Sunday, 27 December 2009

Momentos

“Não me lembro de uma manhã de Novembro tão fria como esta”. Passavam alguns minutos das dez da manhã, estava sol mas a temperatura não ia além dos sete graus. Miguel estava na plataforma a olhar para o horizonte, expectante pelo comboio que deve chegar em breve. Ele aguardava por este dia há apenas algumas semanas, mas o tempo não era relevante. Na verdade, Miguel ansiara toda a sua vida pela chegada deste dia.

O relógio já se aproximava das onze quando o som familiar de toneladas de metal a ranger nos carris começou a se ouvir. Embora ele já tenha presenciado esta agonia sonora inúmeras vezes, hoje soava de forma diferente, como uma suave melodia tocada por um mestre do violino. O comboio rapidamente surgiu na linha do horizonte, e num mero instante já estava a parar à sua frente. Quando as portas se abriram e a multidão de passageiros começou a sair, Miguel sentiu o seu coração acelerar. Era difícil decifrar alguém no meio deste mar de faces desconhecidas. Num breve relance ele vê-a. “Sara”, chama. Ela acena na sua direcção, e ele responde com o mesmo gesto.

Várias pessoas os rodeavam, apressadas na azáfama típica de uma manhã de Novembro, mas naquele momento eram apenas eles os dois, tudo o resto desvanecia num fundo que ambos ignoravam. Naquele cruzar de olhares, Miguel sentiu o seu coração a parar, à medida que se deslocavam em direcção um ao outro era como se o tempo tivesse abrandado. Quando finalmente se encontram frente a frente, tudo regressa ao normal.

“Olá”, diz ela com o seu belo sorriso. “Olá”, responde, esboçando um sorriso que revela mais do que ele pretendia.

Apesar do frio que se fazia sentir, naquele instante Miguel viu-se envolvido por um calor primaveril, que não se lembra de alguma vez ter sentido.

“Vamos?” Ela consente, e descem as escadas para saírem da estação.

Enquanto se deslocam, conversam sobre temas banais que naquele instante parecem ser muito importantes. Ambos se perdem nas palavras um do outro, e o tempo passa com uma naturalidade inesperada.

Após o almoço, encontram uma modesta esplanada numa pequena rua coberta de calçada.

“Pode ser aqui?”, ele pergunta.

“Sim, vou lá dentro pedir, o que queres?”

“Nada, eu tenho de ir ali, dás-me cinco minutos?”

“Sim, claro.” Sara responde, estranhando este pedido súbito.

Miguel atravessa a rua e desaparece da sua linha de visão. Sara decide aguardar que ele chegue e procura uma mesa com vista para a cidade. Escolhe uma com um pequeno vaso vazio, sem nenhuma justificação para este se encontrar ali. Uma voz interior dizia-lhe que esta era a mesa certa, embora ela não soubesse ao certo porquê.

Passados cinco minutos, tal como prometido, Miguel aparece. Sara não se apercebe da sua chegada, e apesar de a sua face mostrar surpresa, esta não é provocada pela chegada de Miguel mas sim pelo que ele traz consigo. Um ramo de Amores Perfeitos. Não, Miguel não escolheu estas flores por causa de algum sentido subtil, mas sim por serem as preferidas dela.

“Não pude resistir, vi-os na montra no caminho para aqui”, diz.

“Lembraste-te… Obrigado.” Sara levanta-se e beija-o levemente na face.

Ela coloca-as no vaso, embora não possa ter a certeza, acredita que, de alguma forma, é ele o responsável pela presença do vaso.

Ambos sorriem enquanto trocam olhares, num momento de silêncio em que não são precisas palavras.

Não tardam a retomar o ritmo da conversa anterior, contudo há algo diferente, ambos o sentem, mas o momento ainda não é o certo.

À medida que o dia se aproximava do fim, Sara e Miguel sentiam a noite a aproximar e sabiam o que isso significava.

Miguel levou-a a um jardim, o sol já começara a pôr-se. Um corredor de velhas árvores reluzia em tons de dourado, à medida que os últimos raios do sol outonal brilhavam sob os castanhos, laranjas e amarelos das folhas que ocupavam as copas e preenchiam o céu. No chão a relva verdejante cintilava de vida. Escolheram um pequeno banco mesmo no fim deste corredor onde se sentaram a contemplar o último hino à beleza natural, que o sol deste dia estava disposto a celebrar.

“Lindo, não é?” Sara diz.

Miguel, que estava a contemplar o horizonte, vira o olhar para ela e responde: “Sim.”

Silêncio. Desta vez Sara não sorri, desvia o olhar para as suas mãos e o seu coração acelera, como que banhado por uma torrente de realização.

“Miguel, eu…” Mas antes que ela possa dizer algo, ele toma a sua mão direita e caricia-a levemente. Ela volta a cruzar os seus olhos com os dele. Algo impele-a a falar, mas ele abana ligeiramente a cabeça. Não. Não assim.

A noite cai sobre o jardim outrora dourado, está na hora de se despedirem. Ela agarra nas suas flores e aperta-as fortemente contra o seu peito. Ambos atravessam novamente o corredor, agora apenas iluminado pelas luzes dos candeeiros de rua. Lado a lado, apenas os dois.

Chegaram à estação pouco antes da hora de partida. O comboio já aguardava na sua plataforma e alguns passageiros começavam a embarcar.

“Acho que tenho de ir…”, Sara diz, olhando para uma das portas da carruagem.

Miguel aproxima-se dela e envolve-a num abraço profundo. Sara encosta a sua face ao seu peito. O tempo pára desta vez na sua totalidade. Naquele momento ambos conseguem sentir o coração um do outro, ambos batem em uníssono, gritando pelas palavras negadas durante todo o dia.

Sara afasta-se ligeiramente do seu abraço e olha-o intensamente.

“Miguel, eu…”

“Eu também.” Ele interrompe. Estas duas palavras desvanecem qualquer sombra de dúvida que pudesse ainda existir. Apenas uma palavra é capaz de descrever aquilo que sentem um pelo outro, e mesmo ela parece insignificante perante um sentimento tão intenso como aquele que ambos partilham. Amor.

O comboio apita para a última chamada de embarque e fá-los regressar friamente à realidade. Sara liberta-se do seu abraço. À medida que se afastam um do outro, os braços de ambos atravessam-se suavemente, como que tentando impedir que o outro se afastasse. Quando os seus dedos se cruzam, sentem pela última vez o calor do seu amor. Sara agarra fortemente o ramo de Amores Perfeitos junto ao seu peito e dirige-se para a porta. Miguel ouve através deste gesto aquilo que ambos quiseram dizer.

Ao subir para a carruagem, ela detém-se por momentos nas escadas e olha-o por uma última vez antes de partir. Sara sorri-lhe, aquele sorriso que ela reserva apenas para ele, e Miguel contempla-o por uma última vez.

Ela entra na carruagem. Como se tivesse que compensar pelos momentos em que esteve parado, o tempo acelera e tão depressa como chegou, o comboio desaparece de vista. Miguel permanece no mesmo lugar a fitar o horizonte, como tinha feito hoje de manhã. Foram apenas algumas horas, mas para ele foi como se uma vida inteira tivesse passado nos breves momentos que Sara partilhou com ele.

Friday, 22 May 2009

Na Esquina de Uma Vida

Chamem-me o nome que acharem que encaixa melhor na imagem que têm de mim, seja ela qual for, é tudo, menos quem eu sou.

O giz tocava o quadro deixando o típico rastro de linhas brancas que há distância formavam alguma equação, alguma frase, no fundo meros elementos de um todo reconhecível apenas por aqueles capazes de decifrar o código criado pela personagem que tomava o posto de liderança na frente da sala. Quarta carteira a contar da direita, do lado da janela, sim sou eu o tipo a olhar para lá da janela, só, numa sala com vinte pessoas, a pensar num lugar distante, num mundo diferente. Sinto um ligeiro toque no braço, é o Tiago a avisar-me que a professora me está a chamar.

- Está bom tempo lá fora não está? – O sarcasmo natural de uma das raras pessoas pelas quais nutro um certo respeito mútuo e com a qual sinto-me à vontade para responder de igual modo.

- Não sei, acho que tenho de ir averiguar se está tão bom como parece – mal as palavras saíram da minha boca, questionei-me sobre a extraordinária naturalidade com que elas surgiram. Como consigo ser tão eloquente em momentos como este e um completo pateta em situações importantes? Ainda hoje não encontrei resposta para essa pergunta.

- Concentra-te no que se está a passar deste lado, já falta pouco para o descobrires – disse, entre o seu já habitual sorriso e olhar sério de alguém que encara o seu emprego não como um ofício mas como uma vocação.

Voltei a minha atenção para o centro da sala, mas os meus pensamentos não tardaram a desviar-se da matéria, fosse ela qual fosse, que estava em foco naquele momento. Não, bastou por os olhos nela, sentada na primeira fila, mesmo no centro, do lado esquerdo da sua carteira. Na verdade o meu olhar já tinha caído sobre ela mal me dirigi para a professora e a vi a olhar na minha direcção. Libertei um triste, inaudível suspiro e concentrei-me em escrever algo no meu caderno, enquanto resistia à estranha tentação de empilhar caixas de minas uma em cima das outras.

Olhei para o meu pulso, maldito hábito que ao fim de tanto tempo ainda não consegui perder. Há já uns tempos tinha deixado o meu velho Casio amarelo guardado nalguma gaveta de minha casa. Ainda experimentei trocá-lo por um Swatch branco, mas logo no primeiro dia que o usei, a corrente arrebentou-se e com ela a minha vontade de controlar o tempo, ou de ser controlado por ele. Mas talvez algum sentido de identificação temporal ainda permanecesse vivo dentro de mim, um resquício primitivo de tempos há muito perdidos, pois mal repus a manga na sua devida posição, o toque surgiu. O seu eco ao atravessar pelas paredes do velho liceu despertava uma autêntica rumaria de cadeiras a arrastarem-se, portas a abrirem-se e pessoas a falar.

- Finalmente fim-de-semana – disse para o Tiago.

- Já não era sem tempo! Vou ver o Sporting a Aveiro, queres vir?

- Era uma boa ideia, logo combinamos melhor – toquei-lhe ligeiramente no ombro e dirigi-me na direcção dela.

- Vamos? – Por um momento perdi-me no seu olhar e esqueci tudo o que me rodeava.

- Sim – o momento foi curto.

Pelos estreitos corredores, agora cheios de alunos apressados e desejosos de ir para casa saborear a doce liberdade do fim-de-semana, outras pessoas se juntaram a nós. Outro Tiago, o Acosta, o Policarpo, a Verónica e a Inês. Concentrámo-nos em frente ao portão da saída à espera daqueles que se atrasaram na conversa com outras pessoas. Uma vez juntos e feitas as despedidas àqueles que daquele ponto para a frente não mais nos acompanhavam, seguimos caminho pela velha estrada de empedrado que nos levava até ao nosso destino, por entre ruas quase desertas.

O caminho era relativamente curto, num dia normal demorava 10 minutos a percorrê-lo, mas eu sabia que nunca chegaria a casa em menos de uma hora. A Inês era a primeira a deixar-nos, depois o Tiago, o Acosta e finalmente o Policarpo e a Verónica acompanhavam-nos até à eterna intercepção, que como uma verdadeira literalidade metafórica separava o meu caminho do dela. Geralmente ambos acompanhavam-nos em longas conversas triviais que chegavam a durar até à hora de jantar mas que ali nos mantinham presos às palavras e experiências de cada um. Mas hoje seria diferente, por um motivo ou outro, tanto o Policarpo como a Verónica nos deixaram a sós e seguiram os seus caminhos de regresso a casa. Ele pegou na sua bicicleta e rapidamente desapareceu no horizonte em direcção aos prédios para lá da linha de comboio. Ela apanhou a velhinha Feirense em direcção a São Vicente. Só restámos nós os dois.

Muitas eram as palavras que pairavam sobre o ar, muitas eram as conversas que ambos desejávamos e que ao mesmo tempo esperávamos nunca vir a ter.

Segurava o velho sinal de Stop que marcava o lugar do nosso encontro, aqui éramos apenas nós e nada mais. Eu sabia que podíamos perder horas ali a falar sobre qualquer assunto, era esse o poder da nossa amizade. Pois, infelizmente, era esse o único sentimento que ela via em mim.

Enquanto ela falava, apesar de a ouvir com a máxima atenção possível de se exigir a qualquer ser humano, absorvendo cada uma das suas palavras, perdia-me na observação dos seus gestos, dos seus profundos olhos castanhos, das leves ondas do seu cabelo, do seu querido nariz e dos sentidos movimentos dos seus lábios.

O meu único desejo era pegar-lhe pela mão e dizer-lhe, ali, tudo aquilo que eu sentia, tudo aquilo que eu queria para nós. Dizer-lhe que a amava, que ela era o único motivo que me fazia levantar todas as manhãs, que ao vê-la sentia o meu coração a bater como se despertasse de um longo sono dormente, que ela era tudo, que só por ela valia a pena entregar todo o meu ser.

- Bom, tenho de ir ajudar a minha mãe a fazer o jantar – com esta frase a realidade fez regressar os meus pensamentos ao aqui e agora que não estava a prestar atenção.

- Já? – Nada mais me ocorreu.

- Tem que ser…

- Oh. Até segunda, então?

- Sim, até segunda – respondeu com o seu típico sorriso que me deixava incapaz de reagir de qualquer maneira para além de simplesmente o retribuir, deixando-me perder nos seus olhos.

Ela preparava-se para atravessar quando as palavras saíram sem qualquer aviso. Espera – eu disse.

- Sim?

Contive-me, incapaz de forçar a honestidade de sentimentos que há muito guardo só para mim, embora no fundo sempre soubesse que ela já se tinha apercebido deles.

- Tem um bom fim-de-semana – respondi.

- Tu também – e com um último sorriso atravessou para o outro lado.

Fiquei a vê-la ir-se embora até a sua sombra se perder por entre as casas da velha rua de S. Miguel. Um dia… – Disse a mim próprio, como sempre o fazia.

Continuei pelo rio da minha vida, cujo destino daquele dia desaguava às portas de minha casa. Hoje, continuamos a seguir caminhos distintos, próximos um do outro, mas mais distantes do que alguma vez conseguiria imaginar.

Wednesday, 17 January 2007

Screaming into the Dark

Quantos dias teriam passado? Que luz era aquela que lhe encadeava os olhos? Alguém podia saber, mas ele já não tomava conta dos dias, nem tão pouco se importava com o que se passava à sua volta, mesmo que esta luz lhe doe-se como se alguém lhe tivesse pegado fogo às iris.

Hoje não seria um dia diferente, apenas mais um dia daqueles que vieram a seguir ao impensável. Mas ontem houve algo diferente, um simples telefonema, que se não fosse pela persistência nunca teria sido atendido. A voz do outro lado pregou-lhe a atenção, mais um palhaço a tentar enchê-lo de propaganda enganosa? Desta vez não, a voz era familiar, alguém do passado, alguém que tinha boas notícias, coisa rara por estas bandas. Apesar do cepticismo ele lá concordou em encontrar-se com a voz, e mal se apercebeu de que a luz era a de mais um dia, do dia seguinte, do dia em que tinha algo a fazer, despertou e preparou-se para ir ao seu encontro.

Ainda era de manhã quando se depararam, já tinham passados alguns anos desde a última vez que se viram mas sentimentalismo e saudade foram coisas que não se viram associadas a este momento. A voz era a de seu filho.

- Vem, descobri uma maneira de a salvar...
- Foi para isso que me chamas-te? Não tenho tempo para parvoíces...
Virou as costas para se afastar mas rapidamente sentiu o seu braço a ser agarrado puxando-o para trás.
- Se fossem parvoíces não te teria chamado!

Ele viu nos seus olhos que ele dizia a verdade, talvez este dia ainda venha a ter mais do que se lhe diga.

Entraram ambos num armazém, ao fundo estava uma estrutura metalizada oval, com uma cadeira no centro, como uma espécie de cápsula.

- Entra lá dentro - disse o seu filho.
- Que é que vai acontecer?
- Consegui fazê-lo, posso levar-te ao momento antes...
- Tás à espera que acredite que aquilo é capaz de contrariar as leis do tempo e do próprio destino?!
- Do destino só cabe a ti descobri-lo, mas do tempo sim. Agora, entras lá dentro ou vais continuar a desperdiçar o resto da tua vida?
- Hm, sempre foste muito teimoso...

Ele entrou na estranha cápsula, apesar de continuar céptico, uma pequena onda de esperança começava a formar-se dentro dele. Depois do seu filho accionar o mecanismo inicial e de lhe explicar o que tinha de fazer, a cápsula fechou-se e ele adormeceu.
***
Alguém sabe o que é perder um verdadeiro amor? Talvez ninguém, mas ele sabia-o. Tudo se passou há uns meses atrás, ou já seriam anos, pouco importa, a data precisa perdeu-se nos fios do tempo. Numa fresca noite primaveril eles passeavam pela floresta, nada havia a temer já o tinham feito muitas vezes, mas algo estava diferente, ele não se sentia ele, todo o seu poder tinha desaparecido, sentia-se normal, mas estando ela ali não havia tempo para pensar nisso. Aquela noite foi mesmo muito diferente. Da escuridão surgiram algumas sombras que sem aviso ou qualquer tipo de motivo decidiram os atacar. Eles fugiram até onde poderam, mas eles encurralaram-nos. Ele tentou lutar contra eles, mas eram meras sombras e para além disso ele sentia-se muito enfraquecido como nunca antes se tinha sentido. 3 foram as flechas que trespassaram o peito da sua companheira, que ali jazeu apenas com forças para um último olhar. Com isto o seu poder retornou tendo mesmo aumentado, o amor tem destas coisas. Com facilidade derrotou as sombras, mas porque é que o seu poder se tinha decipado? Porque tinha ela de morrer? Chegou o dia de obter a resposta a estas perguntas.
***
A cápsula finalmente chegou ao seu destino, ao abrir despertou-o. Ele olhou para as horas, já faltava pouco tempo, tinha que se despachar. Estava na mesma floresta, exactamente como se lembrava, decidiu antecipar-se e procurou o local onde eles tinham sido encurralados. Lá, esperou que eles chegassem, pouco tempo teve de esperar, lá estavam eles e lá estavam as sombras. Concentrando todo o seu poder dirigiu um jacto de energia destruindo todas as sombras. Mas as flechas já tinham sido lançadas, só havia uma coisa a fazer... O último sacrifício por quem ele amava. Colocou-se a si próprio em frente delas e assim foi ele atingido em vez dela. Logo ali desapareceu, o universo inteiro rodou na outra direcção, o destino e a vida de ambos voltou ao normal como se o encontro das sombras nunca tivesse acontecido.

O sacrifício de alguém que morreu naquele dia, culminou na sua verdadeira morte. Era o que tinha a fazer, ele podia já não existir mas o outro ele, que não passa dele mesmo, esse nunca terá que passar pelo mesmo. O seu filho talvez soubesse que era assim que as coisas se viriam a desenrolar, mas nem ele próprio guardou memórias do herói que o seu pai nunca foi. A amostra do verdadeiro amor ficou perdida no tempo sendo esquecida para sempre, ou então continua viva nas vidas que foram salvas naquele dia e nos destinos que se alteraram.

by NoSense (22 de Julho de 2006)

Last Shred of Hope

O bando já vagueava pelo deserto há semanas. Pouco alimento foram encontrando pelo caminho. Exaustos e famintos, aquele precioso oásis de salvação tardava em surgir no horizonte. Tudo começou com a visão que o Deyn tinha tido semanas antes. "Em breve o céu cairá, e com ele o nosso império, nada nos irá salvar, excepto o vale etéreo." Deyn era conhecido pelas suas visões que até agora tinham sempre se concretizado, esta indicava-lhe o caminho para um vale perdido nas histórias do caminho, o único sítio onde se poderiam refugiar. Pouco sabiam que o tempo era cada vez mais escasso.

Deyn viajava com o seu irmão, Nick, a quem os outros olhavam como líder. Os outros eram apenas três, a Berry, o Vin e a May. Os cinco pertenciam a um grupo ainda maior mas que não acreditaram na visão de Deyn e optaram por não os seguir. Já não avistavam ninguém à dias, nenhuma presa se atravessou no seu caminho, eles têm uma grande capacidade em se suster por longos períodos sem se alimentar, mas o calor intenso e o cansaço da viagem já fazia das suas. Ao longe, Nick avistou algo que se paecia com um pequeno lago, pediu a Vin que fosse com ele investigar e disse aos outros para ficarem à espera. O pequeno lago, que de lago tinha pouco, ainda tinha alguns peixes. Apesar de não ter muita experiência, Nick ficou para trás para tentar pescar alguns, e enviou o Vin para trazer os outros de volta. Muito desastrosamente lá conseguiu pescar alguns e preparar o jantar para o resto do bando que por ali descansou até ao anoitecer. O frio da noite obriga-os a mexerem-se, também é de noite que se faz melhor caminho sem aquele tórrido sol a os atrasar constantemente, mas a noite pode esconder muitos perigos, nunca se sabe quando algo maior que nós nos pode atacar. Nick esforçasse para manter o grupo junto e tenta seguir o caminho o mais cuidadosamente possível.


Dias foram passando, o fim cada vez mais próximo, e o seu destino continuando a parecer estar tão longe. Já erão capazes de avistar os picos que rodeavam o vale, atravessá-los será difícil se não mesmo impossível, mas por enquanto têm outras preocupações. Na noite anterior avistaram alguns Tarbos, Nick receia que eles também os tenham avistado a eles, esta noite poderão haver problemas, o bando continua unido, mas o cansaço e o medo de uma morte dolorosa abate os seus espíritos. Nick, faz tudo para os conseguir moralizar. "Já falta pouco, percorremos este caminho todo, não vamos desistir agora." Era isto que eles viam no seu olhar e no seu apoio, e com ele tinham a certeza que lá chegariam.

O Vale em si, era um mero mito, contado de geração em geração, um local de refúgio, intocável e estagnado no tempo, mas a verdade é que existia mesmo, apenas nunca houve motivo para lá chegar, nunca, até à visão do Deyn.

Deyn acordou sobressaltado, era Berry, estava na altura de eles partirem. Era difícil de dizer ao certo aquilo que havia entre Deyn e Berry, uma espécie de ligação, que a fez confiar nele e nas suas visões desde o início. Deyn encontrava conforto nela, a sua réstia de esperança neste mundo que parece tê-la perdido. Os dois juntaram-se ao resto do bundo e seguiram caminho. Alguns km à frente, Nick parou de andar, disse a Deyn e Vin que ficassem com ele, Berry e May esconderam-se por detrás de uns arbustos. Nick tinha "tropeçado" numa pegada de um Tarbos, eles estavam perto, podia ser perigoso seguir em frente, mas ainda muito mais seria se ficassem por ali. Podiam dar a volta na tentativa de os despistar, mas isso iria atrasá-los pelo menos meio-dia, e o tempo escasseava a uma velocidade que eles nem imaginavam. Nick não tinham outra opção, era preciso agir. O grupo continuou em frente, tomando todas as cautelas possíveis. Mas nem o mais cuidadoso dos seres era capaz de prever o que iria acontecer. Vindos do nada dois Tarbos surgiram pelo flanco do grupo. Os cinco juntaram-se o mais que puderam tentando procurar uma oportunidade para fugirem. Os dois Tarbos circundavam-nos - poderia ser difícil, mas estes dois não iriam ter vida fácil, pensou Nick para si póprio. O grupo estava assutado, poucas forças lhes restavam, Nick fez-se a um dos Tarbos, apanhando-o desprevenido. Deyn e Vin tentaram tratar dos outros, mas o Tarbos derruba o Vin, Deyn distraio-o e faz com que ele o persiga. Deyn é mais ágil e mais rápido, mas quando parecia que ia conseguir escapar tropeça numa rocha e cai trapalhosamente no chão, o Tarbos alcança-o e prepara-se para envestir o golpe final. Deyn vê a sua vida a passar em frente dos seus olhos, esta era uma visão menos dolorosa que as anteriores as várias imagens da Berry faziam-no esquecer o terrível destino que lhe seguiria, quando se apercebe que o Tarbos estava a demorar o seu tempo. Ao abrir os olhos vê uma cena muito pior que um pesadelo, o Tarbos perseguia a Berry que tinha vindo em seu socorro. Enfurecendo-se com a situação Deyn corre atrás do Tarbos alcançando-o e pregando-lhe uma rasteira. Este caia estantelado no chão. Para a sorte dos dois, este Tarbos não se irá levantar tão cedo. Mais à frente, May ajuda o Nick a afugentar o outro Tarbos, esta não seria uma refeição fácil e com a queda do seu companheiro, não valia a pena perder mais energia.


Após esta aventura, à qual ninguém sabia como conseguiu escapar vivo e inteiro, os cinco juntaram-se em desespero. Caminhavam à semanas, estavam famintos e não conseguiram encontrar o vale. Até que May chama a atenção dos outros, um pequeno riacho penetrava nas montanhas à sua frente. Nick achou que o deviam seguir. Seguiram o riacho, que se turnou num rio, cujas margens se alargavam à medida que o percorriam. Dias se passaram e este rio parecia não ter fim, até que uma noite, esta iluminou-se, no céu tal como mensageiro divino uma estrela luzia mais do que as outras, quase tanto como a Lua. Foi no espanto dos outros que Deyn reparou no que essa estrela iluminava à sua frente uma queda-de-água dava a um vale luxuriante, tal como aquele descrito na sua visão. Os cinco juntaram-se em alegria, finalmente encontraram a terra prometida e lá se refugiaram do fim dos tempos, da queda do seu impéio.


Essa estrela era um asteróide de mais de 10 km de diâmetro que caiu no outro lado do mundo. A sua queda conjugada com uma série de eventos escureceram a Terra e provocaram a morte de mais de 70% das espécies. Foi assim que chegou ao fim o reinado dos Dinossauros, mas não para todos, os cinco Deynonychus e os demais refugiados do vale, sobreviveram e a sua história que se perdeu juntamente com eles e a localização desse vale, continua a ser contada nesse local longíquo, onde o tempo parou, e onde Nick, Deyn, Vin, Berry e May poderam gozar os últimos anos da sua existência.

by NoSense (17 de Abril de 2006)

Shouting in the Nothingness


Era de manhã, não havia antes nem necessidade de o tratar como antes. O Sol já ia alto, bem acima das nuvens, tão acima que cá por baixo apenas o cinzento da luz ofusca se reflectia. Era mais um dia nublado, um início de uma Primavera normal, como sempre foi, nenhum antes para sentir falta de, apenas um dia como todos os outros. Mas como todos os dias normais, não seriam escritos se não passassem disso mesmo. Com nada em particular pra fazer parto para o sítio do costume onde nada em particular se iria passar, não num dia tão normal como este. Dava-me como concretizado em conseguir encontrar alegria num dia cinzento e, assim pertencendo a um grupo restrito daqueles capazes de o fazer. Ao subir as escadas, nada para além da normalidade. Normalidade de degraus incontáveis, permanentes e passados, mantendo sempre uma indiferença rochosa perante tudo aquilo que por eles passa. Continuando até ao topo, onde caminho para aquele local, onde lá estarei, naquela normalidade que absorve este dia. Que dias normais, esses passados, subindo e descendo degraus, caminhando por passeios e estradas sobre as quais outros passavam seguindo as suas rotinas e procurando o mesmo propósito de uma busca pela normalidade. Mas tudo isto ainda não era um antes, se alguma vez viria a ser, era aquilo que era, era um agora, um agora que não precisava de um antes, que nem sonhava em ser um antes e que não precisava de um antes. Todos estes caminhos assim continuarão, até ao dia em que os agoras do presente se tornem nos antes do passado, que perseguem estes presentes, não como ofertas, mas como aquilo que são, lembranças de um antes que já foi um agora. Caminhos férreos, acidentes, realidades, anjos, terraços, perigos, bicicletas e viagens, sempre viagens. E assim todos os antes se culminam num agora, incapaz de ser aceitado ou que não passa disso, apenas um agora em toda a sua normalidade, um agora que não teme nem anseia por um antes. Porque tem que haver algo a ser salvo? Porque tem algo que desaparecer? Porque tem algo de ser relembrado? Perguntas vãs, com respostas sem sentido. Nem o nada sabe aquilo que é, ou que não é. Hoje é um dia normal, o dia da eterna e simplista nebulação que nos acinzenta o caminho para a alegria.

by NoSense (25 de Março de 2006)

Aulas e mais aulas, e mais aulas...

Era uma vez, em tempos que já lá vão, D. João II estava sentado na sua corte, à direita de seu pai. Nessa manhã Jesus tinha lhe visitado com uma intimidação avisando que o ia processar por violação dos direitos de autor, mas tal pouco afectou el-Rei, que até ficou maravilhado com a performance musical digna de Broadway, seja lá o que isso for, quando for inventado, pois ainda não o foi, mas el-Rei lá sabe que o será. Mas Jesus não foi a sua única visita. Após o cenário ter sido levantado, Cristovão Colombo veio pedir-lhe fundos para viajar em busca da Índia e um adiantamento do seu registo de nacionalidade Portuguesa, pois a selecção tinha um compromisso muito importante com a futura selecção Brasileira e ele era preciso para os escravizar antes que o Ronaldinho conseguisse chegar à área. D. João II não gostou da conversa e mandou-o ir dar uma volta ao bilhar grande, seja lá isso o que for. Colombo partiu assim para as docas onde viu Vasco da Gama na conversa com o Infante D. Henrique, estes planeavam uma maneira de jogar ao berlinde com cubos de vidro em vez de esferas. Colombo achou a ideia de génio, mas a ideia de ir para a Índia de Nau, ainda lhe agradou mais.

Estando os dados lançados, Vasco da Gama partiu para a Índia e Colombo pediu um táxi para o seguir, pagando 15 euros, seja lá o que isso for, pela boleia das docas até ao mar, onde construiu uma Nau com os pinheiros do pinhal de Leiria, que estavam, convenientemente, por ali ao acaso. Colombo terminou a construção da Nau e partiu no encalce de Vasco da Gama que já lhe levava algumas milhas de avanço. Dias foram-se passando, até que num dia de nevoeiro denso, onde anos mais tarde D. Sebastião se irá perder, Colombo optou por virar à direita acabando por atingir uma terra desconhecida, chamada Brasil, que este pensou ser a Índia. Mal chegou, entrou em contacto com os locais.


- Então isto é que é a Índia?

- Não cara! Isto é o Brasil, a Índia fica pra aquele lado!
- Hmm... Quem sois vós?
- Eu sou o Sexta-Feira, não sei o que faço aqui, este cara aqui é o Mindão, foi ele que subjectivamente me ensinou a falar assim, sabe...

Deparado como uma figura que não se parecia com nada, Colombo assustou-se e voltou para Portugal, entrando no Estádio da Luz para pedir ao Luís Filipe Vieira que abanasse as orelhas e que pedisse ao Bin Laden para lhe emprestar antrax para ele poder conquistar a terra desconhecida chamada Brasil. Mas, pobre coitado, Colombo teve que se contentar com umas gripes e uns sarampos.


Do outro lado do mundo, Vasco da Gama já tinha chegado a Moçambique, onde contratou o Eusébio para o Sporting e teve uma longa conversa com Sexta-Feira (que tinha apanhado um voo da TAP no dia anterior) sobre o seu novo jogo de berlindes, Sexta-Feira achou a ideia interessante e até lhe indicou o resto do caminho que Vasco da Gama ainda tinha que fazer para chegar à Índia. Despedindo-se de Sexta-Feira e levando o Eusébio a bordo, Vasco da Gama partiu em busca da Índia, passando o caminho todo a falar do encontro com o Mostrengo e da maneira com que ele conseguiu convencer o mesmo a baixar as suas espectativas, aproveitando um momento de maior emoção para lhe espetar com a pontinha da Nau no olho, fazendo-o contorcer em dor, enquanto Vasco, Jesus, os sete anões, Camões e a míuda do gás, fugiam para a segurança do mar aberto.


Passaram-se meses e até mesmo dias. Quando Vasco da Gama finalmente encontrou a Índia, lá estava o Sexta-Feira à beira de uma placa que dizia Bem-Vindo em 7 línguas diferentes. Vasco da Gama cumprimentou o amigo e foi ao Modelo mais próximo comprar especiarias e umas pilhas AAA para o comando da televisão de el-Rei. Apesar da oferta de Sexta-Feira lhes dar boleia no seu tapete mágico, Vasco e os 12 magníficos seguiram viagem de regresso a Portugal, onde à chegada lembraram-se que se tinham esquecido do passe internacional do Eusébio, obrigando este a ficar 462 anos à espera na alfândega acabando por se tornar no novo reforço do Benfica. E foi assim que naquele dia Sexta-Feira inventou o jogo do berlinde aparando os cubos e tornando-os em esferas.


Fim.
by Nosense (18 de Fevereiro de 2006)