Passava pouco das nove da manhã.
Miguel olhava pela janela para a rua iluminada por um branco matinal, típico do
sol de uma manhã de Outubro. A luz penetrava pela janela semi-aberta do
escritório, realçando o sofá onde Miguel aguardava pela consulta. Um homem
observava-o na penumbra oposta do outro lado da sala. Os dois trocaram um olhar
enquanto Miguel saboreava os últimos momentos do cigarro que segurava entre os
dedos.
“Aqui tem”, disse o homem
oferecendo-lhe um cinzeiro.
Miguel expirou lentamente deixando
o fumo desvanecer-se pelo ar com a leveza de uma clara neblina. Enquanto
esmagava as cinzas na base do cinzeiro, o seu olhar voltou a desviar-se para o
homem do outro lado da sala. Um silêncio de antecipação abateu-se pelo
escritório.
Miguel foi o primeiro a falar
“Por onde quer que comece?”,
perguntou.
“Não existe qualquer regra
estabelecida, mas como na maioria das histórias, pode sempre começar pelo
início.”
“Permita-me então que contrarie a
norma e que comece pelo fim.”
“Como desejar.”
“Há cinco estágios de luto…”
“De morte”, interrompeu o homem.
“Ambos dependem da perspectiva,
do sujeito que a vive. Embora se tratem de dois estados diferentes, têm ambos o
mesmo objectivo. Seguir em frente e aceitar a necessidade de o fazer.”
“Podemos colocar as coisas dessa
forma, mas não se esqueça que são dois tipos distintos de aceitação.”
“Talvez, mas não concorda que no
fundo ambos os percursos procuram apenas ensinar-nos a conviver com a
inevitabilidade do nosso destino?”
O homem ponderou por um momento e
assentiu.
“Como estava a dizer, há cinco
estágios de luto. O primeiro é a negação.”
“O estágio em que actualmente se
encontra?”
Sem se aperceber, Miguel brincava
com o seu isqueiro por entre os dedos. Observou este acto involuntário das suas
mãos por alguns instantes antes de se dirigir novamente ao homem.
“Acho que parte dos motivos que
me trouxeram aqui hoje foi o senhor ajudar-me a descobrir em que estágio me
encontro.”
“De facto posso ajudá-lo mas
preciso de mais informação.”
Miguel retomou a sua história.
“Negação. Talvez seja esta a
melhor fase. Mantemos a esperança de que as coisas possam ainda melhorar. Sair
da cama faz-nos pensar que o novo dia pode trazer algo melhor. Que tudo não
passou de um pesadelo. Mas como o próprio nome indica, tudo isso não passa de
uma doce mentira que contamos a nós próprios para que a dor não seja tão
forte.”
A sua expressão manteve-se séria,
inalterável. O homem observava-o incentivando-o a continuar.
“É só uma fase, vai passar. Os
seus níveis hormonais estão desregulados. Afinal a página da Wikipédia dizia
que paranóia era um dos sintomas mais comuns. O Verão nunca foi uma boa estação
para mim, quando regressar o Outono voltaremos a ser felizes. A minha
sensibilidade à luz faz com que me veja obrigado a semicerrar os olhos o que me
torna menos atraente. Afinal o amor supera tudo, não é? Quando se ama alguém é
para sempre e nada pode mudar isso. A mulher por quem me apaixonei continua lá,
algures. Ela voltará a ser a mesma.”
Miguel falava para o vazio,
ignorando a presença do homem.
“Pequenas mentiras racionais que
contamos a nós próprios para fazer com que tudo fique melhor. Mas não fica. A
dor continua lá e o passar do tempo apenas alimenta esse sofrimento.”
“Como está a lidar com esse
sofrimento?”
Miguel respirou fundo, pensando
em silêncio com o olhar desviado para a janela do escritório. Segurava o
isqueiro na sua mão direita, acendendo-o durante curtos intervalos.
“Às vezes gosto de pensar que
saltei a negação, fodi todos os outros estágios e mantive-me na raiva,
deixando-a apoderar-se de mim até que cada centímetro do meu corpo se tornasse
dormente”, responde, deixando sair um riso irónico.
“Descreva-me essa raiva.”
“Raiva. Segundo estágio. Ódio.
Frustração. Sentimento de impotência para com tudo. Como se atreve a questionar
os meus sentimentos por ela? Porque é que se limita a pegar em ridículos e
insignificantes pormenores? Como pode alguém se esquecer de todos os momentos
bons que passámos, de como éramos felizes e apenas insistir em dois ou três
episódios maus que podiam ser tão facilmente apagados por uma fracção dos dias
em que fomos felizes? Porque tenho que levar com esta barreira irracional que a
impede de ver a simples verdade do nosso amor?”
Sem se ter apercebido, Miguel
lançou o isqueiro para o outro lado da sala. As suas mãos, agora nuas,
seguravam a sua face, impedindo em esforço, como uma frágil barragem, o fluxo
de lágrimas que os seus olhos pareciam ameaçar.
O homem continuava a observá-lo
serenamente.
“Quer contar-me o que se
passou?”, perguntou.
“Não. Certas histórias precisam
do momento certo para serem contadas.”
“Este não é o momento certo?”
Miguel compôs-se e voltou a fitar
o vazio por alguns instantes. “Não”, respondeu, finalmente.
O homem assentiu, enquanto
anotava algo no seu bloco de notas.
“Suponho que queira falar sobre a
negociação.”
“Pensava que já tinha acordado o
preço com a sua secretária.”
O homem sorriu, surpreso pela
breve centelha de humor. “Continue.”
“Terceiro estágio. Negociação.
Talvez o mais humilhante. Tão útil como lançar uma garrafa de oxigénio para uma
casa em chamas com a esperança de as apagar.”
Miguel pausou por alguns segundos
antes de continuar. O homem ofereceu-lhe um copo de água que ele aceitou com
gratidão.
“Pensei para mim próprio”,
continuou. “Talvez se eu mudasse, talvez se ela me desse mais uma oportunidade
de lhe provar como podemos voltar a ser felizes. Basta estarmos juntos, ela vai
voltar a senti-lo. Se eu implorar, se eu bradar aos céus o que sinto por ela,
talvez aí…”
Hesitou, inseguro sobre o que
estava prestes a revelar.
“Uma noite cheguei mesmo a rezar,
a pedir que ela desse ouvidos ao seu coração e que de alguma forma encontrasse
a calma de espírito necessária para quebrar a sua lógica destrutiva e voltar a
ser feliz comigo. Um último acto de desespero…”
O homem observou Miguel
pensativamente antes de falar.
“Recorrer a uma entidade superior
quando nos sentimos impotentes e nada mais temos onde nos apoiar, faz parte da
condição humana. Não é algo do qual deva ter vergonha.”
Miguel assentiu.
“Foi nesse momento que percebi
que nada mais havia a fazer. Por mais que me quisesse convencer do contrário,
por mais que me quisesse agarrar a uma réstia de esperança, nada mais podia
fazer.”
“Quarto estágio”, disse o homem.
“Depressão”, respondeu.
“Por mais romântico que fosse,
por mais poemas que escrevesse, por mais canções que lhe cantasse, nada iria
mudar. Embora não tivesse feito nada de mal…”, parou, hesitante.
“Aliás, embora tenha errado em
certos aspectos, quando não se comete um ‘crime’ específico, algo objectivo que
seja capaz de ser remediado, que seja capaz de ser perdoado, nada há a fazer.
Nada há a fazer, quando o problema és tu, a forma como te vês, como és, como
sentes, como vives. Quando o teu único erro é a tua maneira de estar e de ver o
mundo, nada podes fazer. Nada podes fazer se não…”
As primeiras lágrimas escorriam
pelo seu rosto enquanto ele voltava a olhar através da janela semi-cerrada.
“Se não?”, perguntou o homem.
Miguel limpou as lágrimas dos
seus olhos, calmamente dirigindo o seu olhar para o homem.
“Aceitar.”
“Quinto e último estágio”, respondeu.
“Já estive em baixo, antes.
Normalmente dormia durante horas a fundo sem qualquer vontade de me levantar da
cama, mas não agora. Mal consigo dormir. Embora tenha alguma facilidade em
adormecer, acordo muito antes da minha hora habitual e levanto-me quase de
seguida. Apesar das poucas horas de sono, é raro sentir-me exausto ao fim do
dia. Para ser sincero, é raro sentir seja o que for.”
“Acha que ainda se encontra no
quarto estágio?”
“Sim. Não estou preparado para
seguir em frente, não sou capaz de aceitar a ideia que a perdi para sempre. De
esquecer todos os planos que tínhamos, todas as coisas que não fizemos. De
apagar toda a imagem de um futuro juntos. Tenho saudades dela, do seu olhar, do
seu sorriso, do seu cheiro, do seu toque… Tenho saudades do seu amor. Tenho
saudades da nossa felicidade.”
Miguel rompeu em lágrimas e
deixou-se cair no chão do escritório. O homem aproximou-se para o consolar,
oferecendo um lenço de papel. Durante alguns minutos, ficaram ambos por ali. O
silêncio da sala era apenas interrompido pela respiração ofegante de Miguel.
“Estes ataques de ansiedade
são-lhe frequentes?”
“Uma vez por dia, pelo menos”.
O homem assentiu anotando no
bloco de notas.
“Parece-me que compreende perfeitamente
qual o próximo passo a tomar.”
“Seguir em frente.”
O homem esboçou um sorriso de
concordância.
“É bem mais fácil dizer que
fazer”, responde.
“Por mais que eu queira que a dor acabe. Sinto
a necessidade de compreender o que se passou, de saber porque é que tudo isto
aconteceu. Éramos tão felizes, tudo parecia tão certo.”
O homem ponderou por alguns
segundos antes de responder.
“A palavra-chave nesse frase é
‘parecia’. Talvez tenha razão e tenha-se tratado apenas de algo que aconteceu
de um dia para o outro, talvez ela apenas não se tenha sentido à vontade para
partilhar consigo o que se estava a passar. Independentemente disso, o que é
importante para si neste momento não é procurar as razões que o trouxeram aqui,
mas sim redescobrir a sua autoconfiança, aceitar que ela o magoou e sentir-se
capaz de seguir em frente para encontrar alguém que seja capaz de o amar por
quem é, sem que sinta a necessidade de mudar. O seu futuro passa por alguém que
o aceite e com quem se sinta à vontade para ser real a si próprio.”
Sentindo-se melhor, Miguel
compôs-se e sorriu.
O homem olhou para o relógio, já
passava da hora que tinham combinado.
“Muito obrigado”, disse Miguel
enquanto se despedia do homem.
“Nunca subestime o poder do
respeito por si próprio. Ser capaz de aceitar tudo aquilo que faz de si alguém
único, é o primeiro passo para a aceitação do seu próprio destino.”
Miguel esboçou um último sorriso
antes de sair.
“Quinto estágio”, disse, enquanto
saía do escritório para regressar a casa. O sol outonal ainda brilhava com
intensidade, iluminando um novo dia cheio de oportunidades escondidas ao virar
de cada esquina.
Miguel respirou fundo e regressou
a casa com um sentimento de paz lentamente se apoderando do seu corpo,
consolando a cada passo a dor que pesava no seu coração.
Adriano Cerqueira
8 de Outubro de 2011


